o outro lado da luz, 2023
Galeria São Mamede, Lisboa
Ana Cardoso apresenta-nos "o outro lado da luz" através da construção de significado no que é intencionalmente colocado em situação de luz e de sombra. A exposição traz a modelação e compreensão das formas, texturas e organizações espaciais através do binómio luz/sombra. O que se apresenta em luz e o que não se vê em sombra constroem cenários recortados de um contexto que não nos chega. Por isso, as propostas pictóricas são fatias suspensas que nos levam para outro espaço e para outro tempo, um vídeo still descontextualizado da sua narrativa.
As imagens são interpretadas pelo que Ana Cardoso nos dá a ver: situações pictóricas onde corpo e paisagem dialogam e onde a relação luz-sombra constrói as formas e o ambiente. A pintura conduz o olhar para as sombras projetadas nas superfícies e nos corpos. As pinturas constroem-se pela variação de uma luz de tempos vividos e indiscriminados.
A paleta da artista é fiel ao verde que marca quase todas as obras, principalmente na representação da natureza. Os binómios luz/sombra convivem com a tensão proposta pela relação entre tons escuros com tons muito claros. Mergulhamos num lago de verdes, azuis, castanhos, beges, tons de pele com diferentes bronzes. Estas relações cromáticas projetam os corpos para nós, fazendo-os sobressair, como se fossem peles destacáveis da paisagem.
A vegetação está presente, completa e afoga as composições, evitando identificar um lugar específico. A representação da luz e da natureza incide nestas situações narrativas fragmentadas, incertas, referentes a um instante de uma sucessão de instantes. As atmosferas das suas pinturas propõem um fôlego discursivo onde os corpos recatados exploram o lazer. As composições registam um momento de uma narrativa que não nos chega.
Desejamos algo nas imagens: o ócio, o tempo, a luz, a temperatura, a companhia. “o outro lado da luz”, é, também, o outro lado das histórias que Ana Cardoso nos dá a ver: a primeira metade é lançada com as personagens, enquadramentos e cores que as composições apresentam, a segunda metade é entregue ao fruidor que as interpreta, afeiçoa e completa com a nostalgia experienciada ou desejada. — Filipa Cruz




















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